LIVROS | Estudo revela perfil conservador de autores brasileiros!

08/06/2018 11:26

Imagem meramente ilustrativa / Arquivo webnode
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Publicado por Amanda Massuela, na CULT

CULTURA | O perfil do romancista brasileiro publicado por grandes editoras se manteve o mesmo por pelo menos 43 anos. Ele é homem, branco, de classe média, nascido no eixo Rio-São Paulo. Seus narradores, protagonistas e coadjuvantes são em sua maioria homens, também brancos, de classe média, heterossexuais e moradores de grandes cidades.

A conclusão é resultado de um estudo iniciado em 2003 pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília, sob a coordenação da professora titular de literatura brasileira Regina Dalcastagnè, 50. Dividida em duas etapas - a primeira publicada em 2005 e a segunda com previsão de lançamento até abril de 2018 -, a pesquisa analisou um total de 692 romances escritos por 383 autores em três períodos distintos: de 1965 a 1979, de 1990 a 2004 e de 2005 a 2014. Ainda inéditos, os números anteriores à década de 1990 e posteriores a 2004 são publicados com exclusividade pela CULT.

Apesar de bastante homogêneos, os dados mostram um aumento de 12 pontos percentuais na publicação de romances escritos por mulheres — fato que, por sua vez, não produziu um crescimento significativo na quantidade de personagens femininas. O que salta aos olhos — mas não surpreende — é a falta de mulheres e homens negros tanto na posição de autores (2%) como na de personagens (6%). Mulheres negras aparecem como protagonistas em apenas seis ocasiões, e outras duas como narradoras das histórias. Mulheres brancas, por sua vez, ocuparam essas posições 136 e 44 vezes, respectivamente. Os autores vivem basicamente no Rio de Janeiro (33%), São Paulo (27%) e Rio Grande do Sul (9%)

Estudiosa do romance brasileiro, doutora em Teoria Literária pela UNICAMP e autora de Literatura brasileira contemporânea: um território contestado (2012), entre outros títulos, Dalcastagnè atribui esse desequilíbrio ao próprio campo literário, que produz um ciclo vicioso de publicações homogêneas, escritas do ponto de vista de uma classe média autorreferente e "entediante". "Quando as grandes editoras publicam livros que tratam sempre dos mesmos temas e trazem um perfil de autor muito parecido, estão dizendo ao leitor o que é considerado literatura e quem pode ser chamado de escritor no Brasil", critica.

O levantamento foi baseado apenas em lançamentos da Record, Companhia das Letras e Rocco, critério adotado com base em consultas a trinta ficcionistas, críticos e pesquisadores de diferentes estados. O estudo deve originar, ainda, um banco de dados aberto com informações mais detalhadas sobre cada romance analisado pelo grupo. Leia a seguir entrevista de Dalcastagnè à CULT.

Título original: Quem é e sobre o que escreve o autor brasileiro

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