Místério | 118 anos depois, o dilema permanece: Capitu traiu Bentinho?

12/06/2018 08:49

Machado de Assis, autor de Dom Casmurro / Foto: Fundação Astrojildo Pereira
Machado de Assis, autor de Dom Casmurro / Foto: Fundação Astrojildo Pereira

Machado quis ir além do fato de um suposto adultério

LIVROS | Por *Landim Neto. Passaram-se já 118 anos desde que Machado de Assis publicou o famoso livro Dom Casmurro, traduzido para diversos idiomas e muito conhecido em vários países, inclusive no Brasil. Mais de um século depois, contudo, permanece o velho e batido dilema: Capitu traiu Bentinho? 

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Para tentar responder a um dos maiores — senão o maior — mistério que envolve personagem de um escritor brasileiro, dezenas de pesquisadores, intelectuais, professores, estudantes e até advogados e policiais no mundo todo já queimaram pestana para tentar dar uma resposta plausível a tal questão. Como em toda polêmica, o fato continua a dividir opiniões: uns dizem que sim. Outros, que não.

Até os anos 1960, no entanto, tal dilema não era tão dilema assim. Dado o caráter machista e conservador da sociedade brasileira, mais arraigado à época, era predominante a tese de que Capitu traíra mesmo seu esposo com Escobar, que por sinal era o melhor amigo de Bentinho. 

Para crucificar Capitu nesse período, seus detratores usavam as famosas 'pistas' deixadas na narrativa, como por exemplo a de que a moça era 'dissimulada', 'calculista', tinha 'olhos de ressaca' e uma amizade de 'sala e cozinha' com Escobar, algo portanto que poderia sugerir uma relação muito além de uma simples amizade. (Continua, após o anúncio).

Já nos mesmos anos 60, uma crítica norte-americana — Helen Caldwell — jogou um balde de água gelada nessa teoria conspiratória contra Capitu.  A pesquisadora defendeu a tese de que a suposta traição da personagem não passava de uma perturbação ilusória de Bentinho, que era dominado por um ciúme tão doentio que o levava a criar fatos para tentar justificar a sua insegurança.

Para tanto, Caldwell comparou o personagem de Machado de Assis a Otelo — cria de William Shakespeare. Otelo, tal como Bentinho, era também dominado por um ciúme patológico a ponto de ter dado ouvidos ao alferes Iago e acreditar que Dêsdemona, sua esposa, o traía. Por conta disso, o Bentinho norte-americano assassinou a mulher, comprovada inocente depois.

Após a intervenção da critica norte-americana, o jogo voltou a equilibrar-se, de modo a que não se sabe hoje ao certo se os que acreditam na inocência de Capitu estão em vantagem ou desvantagem em relação aos que a consideram culpada. (Continua, após o anúncio).

Culpas ou inocências à parte, no entanto, a polêmica história de Capitu e Bentinho não pode continuar a ser lida somente a partir de um fato que certamente nunca será esclarecido. Machado não escreveu sua obra apenas para deixar uma eterna dúvida no ar. 

Crítico que era da chamada sociedade burguesa, o famoso "Bruxo do Cosme Velho quis ir além disso. Na prática, demonstrou como são pequenas as relações humanas baseadas apenas no sentimento de posse de uma pessoa sobre outra. Diante disso, é irrelevante confirmar se Capitu traiu ou não o seu marido.

*Landim Neto é editor do DEVER DE CLASSE

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